Libertar-se
sábado, junho 27, 2015
ESCRITO
POR: CASTOR
Vestia
sempre a mesma blusa de moletom vermelho. Sempre estava com uma calça jeans
preta e tênis relativamente azuis, completamente sujos. Era linda, não como
aquelas meninas do tumblr, era um
outro tipo de beleza. Muito mais intenso, muito mais escondido. Era engraçada,
bastante, aliás. Não deixava ninguém ficar triste, mesmo aqueles que não
conhecia. Sua personalidade, seu jeito de falar, seus modos de agir, tudo era
tão... Encantador...
Ninguém
desconfiava, nem sequer ousavam desconfiar. Tinha uma frase que gostava de
sempre pensar: “Os mais felizes, são os
que mais sofrem...”. Bom, acho que pode ser verdade, e enfatizo: Como sofrem... Convenhamos, ser feliz o
tempo todo não deve ser fácil, principalmente quando ninguém está disposto a
lhe oferecer ajuda quando precisa.
Deve ter sido o inferno...
Era
grossa, mas de um jeito engraçado. Era carinhosa, mas muitos, acostumados com o
antissocialismo, rejeitavam seus abraços e suas palavras carinhosas. Aliás,
abominava essa nova tecnologia, só a agradecia pelos aparelhos de sons
portáteis e pelos fones de ouvidos. Sempre amou contato físico, uma conversa
cara a cara, de olhar pra pessoa com quem conversar, entendê-la e respondê-la e
a pessoa faz apenas o mesmo. Isso sim era uma conversa.
Era
diferente...
E sabia disso.
Não
se importava tanto com o cabelo, por isso amava cortes pequenos. Sempre teve a
mente aberta, gostava de pensar de duas maneiras quando havia um problema. Era
uma dos poucos que não tinha preconceitos e não julgava antes de conhecer.
Ah... Como era maravilhosa... Uma pena que não tenha durado para sempre.
Infelizmente,
sabia esconder bem os seus problemas. Por fora estava alegre e radiante. Por
dentro, o preto e o vácuo assombravam sua mente. Sentia-se sozinha o tempo
todo, em todas as horas, em todos os minutos, em todos os segundos. Sua vida
era resumida em um monte de frustrações consigo mesma.
Queria cantar...
...
Mas não tinha voz para isso.
Queria pintar...
...
Mas a arte não era reconhecida.
Queria atuar...
...
Mas não sabia se expressar.
Queria amar...
...
Mas ninguém estava disposto a isso.
Perdia
seu tempo em cursos estúpidos e lógicos, quando na verdade, pertencia ao mundo
das artes. Sentia-se oprimida por uma mãe sempre autoritária e nunca satisfeita,
por um pai ignorante e orgulhoso e por uma irmã quase rebelde e estupidamente
mimada, essa última ela a chamava de “irmã estragada”. Mas ela amava todos em
sua família, era incapaz de odiar alguém. Não aparentava, mas seu coração era
grande... Cabiam todos ali, o mundo inteiro na verdade.
Tinha
um grande fascínio pelo corpo humano. Cada movimento, cada pensamento, cada
modo de agir, cada piscadela de olhos, cada suspiro, cada célula trabalhando em
seu devido lugar, cada átomo criado apenas para uma função previamente
determinada. A forma como a pele se esticava no corpo de uma pessoa mais... Gorda... Até mesmo as doenças e
deformidades eram fascinantes.
Ela
amava todos...
E
por isso não queria partir...
Mas
a solidão tomou conta de seu coração. As frustrações de nunca ter realizado
aquilo que sempre quis, de nunca ter tido coragem para correr atrás do que
queria, de nunca ter encontrado alguém de verdade para amá-la a consumiram.
Perguntava-se o que haveria depois da morte. Sonhava em ser recebida por vários
anjos, principalmente aqueles seus favoritos. Sonhava também em ser um deles e
proteger aqueles que amava.
Estava
do lado de dentro da escola e não havia brisa alguma. Estava tudo muito quieto,
já que era período de aulas. Queria morrer assim: sozinha, ninguém se
importaria mesmo. Estava no terceiro andar do prédio, o último andar. Subiu nas
grades de proteção, próximas às escadas. Deu uma olhada na janela e enxergou o
céu.
Fechou
seus olhos...
E
sentiu o vento em seus braços...
Ela
se foi, pensando que ninguém a amava...
Mas
eu a amava...
Ela
era perfeita. E ainda é, mas escolheu a liberdade. Libertou-se de tudo e de
todos, de tudo que sentia, de tudo que ouvia, de tudo que lembrava. A angústia
lhe deixou cega, a imaginação lhe traíra criando o cara perfeito para ela, mas
que nunca iria existir: Eu.
Eu
a amava com todas as minhas forças, mesmo em sua cabeça. Tínhamos tido várias
vidas, vários conflitos, vários romances. Nos conhecemos uma vez, e depois de
novo, e de novo, e de novo. Cada encontro diferente do outro. E nunca nos
cansávamos de nos amar, parecia ser infinito.
Mas assim como os anjos. Ela ganhou asas.
E
finalmente...
Pôde
voar...

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