#Crônica: Coragens falsas
sexta-feira, maio 01, 2015
E mais uma vez ela discutia com o pai. Mas não podia evitar, tinha a enorme necessidade de ser livre, de se sentir liberta, poder opinar quando quisesse, se vestir como quisesse, mas a ignorância de seu pai a impedia de satisfazer suas necessidades particulares. Sua cabeça fervia com a discussão que acabara de ter, ocorrida por um motivo extremamente banal. Já não aguentava mais aquela situação, a voz daquele homem, cada dia que se passava, a fazia ter dores de cabeça toda vez que o escutava. Era agora. Já estava decidida.
Foi para seu quarto.
Arrumou suas malas.
Com a chegada da madrugada, quando todos já haviam dormido, ela aproveita para escapar daquela casa de horrores, mais conhecida como casa. Nem olhou para trás, apenas pôs-se a andar o mais rápido possível. Descia a rua de casa, pensando em como se virar dali para frente. Não podia ir a casa de algum parente, seus pais logo descobririam. Nem ir a casa de algum amigo, sua longa estagia iria levantar suspeitas.
Chegou a um ponto de ônibus e ali ficou esperando. Ao entrar no veículo se sentou no fundo do ônibus do lado da janela. Viu as luzes dos postes e dos prédios, viu algumas pessoas andando. Policiais, alguns cachorros. Mendigos e Prostitutas. Alguns fechando suas lojas e outros sentados no ponto de ônibus. Olhou no interior do veículo que estava. Havia um garoto ali, totalmente vestido de preto, uma mulher carregando consigo uma bíblia e um senhor com sua bengala. Ela se sentia estranha, triste, abandonada e um tanto estúpida. Por que resolveu fazer aquilo logo agora? Estava com 17 anos, era só esperar mais alguns meses que estaria livre para ser quem quisesse! Então por que precipitou esse momento?
O ônibus para.
Havia chegado no ponto final daquela linha.
Ela começa então a andar pela cidade. Imaginou como seria a reação de seus pais quando percebessem que ela não estava mais em casa, não estava mais com os amigos, nem com os parentes. Pensava que seu pai não sentiria muita coisa. Sua irmã ficaria até feliz com sua partida, do jeito que as duas se odiavam, era óbvia a felicidade que a caçula ficaria.
E então...
Pensou na mãe...
Pensou em como ela iria sofrer, na tristeza que ela ficaria, na culpa que ela mesma iria se impor. Pensou em tudo aquilo que sua mãe a fizera, tudo que lhe dera, todos os carinhos. Pensou na reação de seu ignorante pai, pensou que ele poderia se descontrolar, culpar ainda mais a pobre coitada que lhe cuidara desde menina. Imaginou-o ficando agressivo e em sua mãe toda ensanguentada e com hematomas. Ela não estaria mais lá para ajudar sua mãe, não haveria ninguém que impedisse seu pai de fazer tal crueldade.
Sacudiu a cabeça.
Afastou aqueles pensamentos e aquelas ideias.
Virou-se para o outro lado da cama.
E voltou a dormir...
Arte encontrada em: Deviantart.com;
Inspirações para essa Crônica: Bloodstream, música de Ed Sheeran e o filme "4 3 2 1";
Arte de: AquaSixio.
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Inspirações para essa Crônica: Bloodstream, música de Ed Sheeran e o filme "4 3 2 1";
Arte de: AquaSixio.

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